quinta-feira, 10 de março de 2016

A "Vênus Hotentote" do século XIX e as Sara's do XXI

No Diário de Aprendizagem sobre a primeira aula, utilizei de bom humor e trocadilhos durante todo o meu relato. Desta vez, sinceramente falando, não tenho motivos para humor nem trocadilhos. Vamos aos fatos.

Para a aula do dia 8 de março (se atentem à data), foi solicitada a leitura de dois textos: Os cruzamentos, Gregor Mendel, e o texto "O racismo científico: da teoria à prática" (para ler na íntegra),  que faz um apanhado histórico sobre o racismo, passando por teorias como o racismo científico, pelos ideais que incentivaram o Holocausto e o Apartheid , entre outras teorias como a frenologia, antropometria etc, utilizadas para justificar a inferioridade do homem negro, índio e asiático em relação ao branco - melhor dizendo, homem cáucaso - em cada aspecto que essas teorias estudavam. O texto traz a informação de que entre os anos de 1890 e 1950 existiam na Europa, América do Norte, Ásia e África, zoológicos que exibiam seres humanos, onde ameríndios, africanos e asiáticos eram expostos como atração tanto nesses zoológicos como em circos.

Para apresentar um desses cenários, foi realizada a exibição do filme A Vênus Negra, o que me chamou a atenção, logo de início, pelo que é comemorado na presente data: Dia Internacional da Mulher. O filme traz a história da sul-africana Saartjie Baartman, que foi levada à Europa para ser empregada na casa de seu dono e realizar apresentações em um circo com a nomeação de Vênus Hotentote. "Sarah", como era chamada, se apresentava como uma selvagem, e ficava dentro de uma gaiola - assumindo um comportamento de agressividade e pronunciando uma linguagem tida como primitiva -, mas a maior atração do número era sua bunda, de tamanho avantajado, visto que destoava do padrão europeu e chamava uma atenção de cunho sexual, onde no final do espetáculo, as pessoas eram "desafiadas" a tocá-la.

Cena do filme retratando a apresentação realizada por "Sarah"

As apresentações de Sarah já me chamavam a atenção pela exotização e erotização que é feita do seu corpo, eis que é exibida uma cena em que ela, já em posse de outro dono, um domador de animais, se apresenta já na França ao trecho da música "Aquarela do Brasil", reproduzida de forma instrumental (violino), e começo a me questionar em relação à intenção dos autores dessa obra em colocar uma trilha sonora que tanto não cabe no contexto histórico como cronológico dos fatos. E a partir daí, minha cabeça virou um turbilhão, pois passei a pensar no hoje, no AGORA, na visão do "homem" europeu com relação aos corpos negros e mulatos femininos, e de toda uma rede de entretenimento. Eis que BUM! eu vejo a mais perfeita conclusão que posso tirar disso: os corpos de negras e mulatas que são exibidos em rede nacional, para puro entretenimento de uma parcela da sociedade. Digo isso pois se o foco do tal entretenimento fosse o "samba no pé" dessas mulheres, não haveria necessidade da exposição de seus corpos quase nus. Se o que fosse julgado fosse a habilidade em um "samba que fizesse gingar", na minha humilde opinião, tanto faria se essas garotas vestissem vestidos ou qualquer outro traje.



Um segundo ponto que me fez refletir é a manipulação que é feita do corpo de Sarah, pois a partir desse ponto do filme, as apresentações feitas por ela já me levava a agonia e vontade de desligar o notebook no mesmo momento. As apresentações passam a ser feitas para um pequeno grupo, em ambiente fechado, em que mulheres e homens são convidados a tocá-la e dar-lhe prazer. No meio desses toques, fica visível (como sempre) a insatisfação de Sarah com aquele contato invasivo, e mais uma vez reflito sobre a visão que é veiculada fora do Brasil: de uma mulher de fácil manipulação e que faz na cama coisas que mais nenhuma mulher é capaz de fazer. Dando seguimento à cena, em que, ao perceber o desconforto de Sarah, aqueles que a tocavam passam a atacar verbalmente seu dono, e ele encara a atitude de reprovação da sul-africana como uma humilhação e a agride fisicamente de forma brutal, parei para pensar nos casos de mulheres, em que dar um "não" ao seu "assediador", é agredida.

Bom, vou parando por aqui, pois reflexões é o que não faltam para serem feitas em cima desse filme, que retrata uma realidade vivida por muitas pessoas no século XIX, mas que mais parecem coisas do século XXI.

terça-feira, 8 de março de 2016

Aula Inaugural

ATENÇÃO! 
SE VOCÊ É UMA PESSOA FRÁGIL COMO EU, ACONSELHO QUE  NÃO SIGA ADIANTE CONTINUE LENDO. RELATOS FORTES PARA CORAÇÕES BOBÕES FRÁGEIS.


Aqui se inicia uma sequência de diários de aprendizagem, resultado das minhas reflexões sobre as aulas da disciplina Educação e Relações Étnico-raciais. Gostaria de dar início apresentando o conceito da palavra fortalecimento. Qual o motivo? Vocês irão entender mais a frente.



A palavra fortalecimento apresenta quatro sentidos: 1º: tornar-se forte; 2º: dar encorajamento a; 3º: tornar mais convincente; 4º: guarnecer com meios de defesa.



Depois de uma breve apresentação do professor Eric Maheu (pronuncia-se Marrô), e a descoberta de sua naturalidade (canadense), respondemos a quatro questionamentos em uma folha de papel com nosso nome sobre raça, etnia e identidade e demos nomes de três pessoas que consideramos heróis/heroínas, o que me gerou um certo frenesí, já que tinha descoberto dias antes minha descendência histórica (indígena).



Após as discussões no meu grupo de amizades, já no retorno do nosso intervalo, com a disposição das cadeiras em ovo círculo, cada um foi se apresentando e relatando algum momento de discriminação racial que tivesse vivido ou presenciado... e aí a coisa foi desandando para mim, pois como boa chorona incubada que sou, ao ouvir os relatos d@s colegas, fui lembrando dos olhos que me eram lançados durante os meus 23 anos de idade, não com relação à cor da minha pele, mas ao meu tipo físico (é... gordo sofre para ser feliz) e outro exemplo, que aí sim inclui cor da pele, que prefiro não mencionar por envolver uma pessoa que não quero expor... e eis que chega minha vez, e PAHH! não consigo falar muito, pois o nó na garganta já me impedia de falar, e preferi fugir me retirar da aula.



Chorando horrores na área externa do Departamento de Educação, tentei me controlar e me acalmar, e comecei a conversar com uma também amiga sobre o ocorrido, e aos poucos, aquela angústia que sentia em partilhar esses dois momentos indo embora - sabemos que uma coisa é você defender uma causa, como defendo e faço parte do Movimento "Vai Ter Gorda Sim", e outra é você conseguir desabafar compartilhar esses momentos, mesmo que já estejam superados - e passei, a partir daquele momento, a me sentir mais forte, encorajada, convincente e guarnecida.